Sônia Kotzian, entre os ostracodes, os radiolários e o ensino
No dia 5 de abril, despedimo-nos da Professora Sônia Conceição Bender Kotzian, nome de referência da Micropaleontologia na UFRGS e no Brasil. Seu nome também está ligado à própria história da Paleontologia brasileira, pois integrou o grupo fundador da Sociedade Brasileira de Paleontologia, criada em 1958.
Nos estudos com ostracodes, dois trabalhos se destacam em sua trajetória. O primeiro foi seu artigo de 1974 sobre o gênero Chlamydotheca, publicado como única autora, contribuição de grande relevância para o estudo dos ostracodes de água doce do Brasil. O segundo foi o artigo de 1978 sobre os ostracodes recentes ao longo de 7.408 km da costa brasileira, realizado com Irajá Damiani Pinto, Lília Pinto de Ornellas, Ivone Purper e Yvonne Terezinha Sanguinetti, e que se tornou o marco inicial no conhecimento dos ostracodes marinhos bentônicos da nossa plataforma continental.
Mais tarde, Sônia voltou-se também ao estudo dos radiolários do Neogeno e do Quaternário, contribuindo de forma pioneira para essa área no país. Sua atuação, porém, não se expressou apenas nos trabalhos que publicou, mas também na formação de pessoas. Foi uma das professoras da disciplina de Micropaleontologia da graduação em Geologia da UFRGS e teve papel decisivo na orientação de especialistas em radiolários, como a Dra. Valesca Maria Portilla Eilert, vinculada à UFRJ, e a Dra. Simone Baecker Fauth, pesquisadora na Unisinos. Nesse sentido, seu legado não se mede apenas pela produção científica e pelo ensino, mas também pelo papel que teve na formação de pesquisadores e pesquisadoras.
Guardo dela uma lembrança muito clara. Em 1981, quando cursei como aluno especial a disciplina de Micropaleontologia, ouvi numa aula ministrada por Sônia que os radiolários eram comuns em cherts estratificados. Como eu vinha da Biologia, não entendi o termo e perguntei. Ao saber que eu não era aluno da Geologia, ela pediu que eu a esperasse ao final da aula e então me explicou com clareza e atenção. Era formal, mas também didática, e essa pequena cena permaneceu na minha memória ao longo dos anos.
Sônia deixou contribuições duradouras aos estudos com ostracodes e radiolários e a marca de uma professora que ensinava com dedicação e compromisso. É assim que quero lembrá-la, como docente marcante e como uma presença de destaque no desenvolvimento da Paleontologia e da Micropaleontologia em nosso meio.
Com carinho, J.C. Coimbra
05 de abril de 2026







