Comunicados

Fogo invisível
 
Não é só de chamas e labaredas que o patrimônio científico brasileiro se destrói. O que o ocorreu ao Museu Nacional foi triste e podia ser evitado, sim, mas o evento final foi rápido e visível. Não é o caso do decreto nº 54.268, publicado no dia 10 de outubro no Diário Oficial do Rio Grande do Sul que encerra (extingue) as atividades da Fundação Zoobotânica – FZB. Desde 2015 segue-se tentativas de fechar a FZB e houve consequentes demonstrações e apelos de entidades científicas demonstrando a importância da manutenção da pesquisa e do acervo construídos por décadas de trabalho, os quais são tão escassos em terras nacionais. A Sociedade Brasileira de Paleontologia, inclusive, se manifestou, não apenas uma vez, em relação ao fechamento da FZB por entender a importância não só do patrimônio científico, mas também dos funcionários qualificados que têm vínculos de vida não só profissional, mas também pessoal a essa instituição. Hoje, a SBP quer se manifestar não apenas pela perda da pesquisa, das coleções, do ensino de pós-graduação e das atividades de extensão e de divulgação científica que o fechamento da FZB poderá causar. Queremos também, nesse momento, externar nossa profunda indignação e repúdio ao governo do Sr. José Ivo Sartori (MDB) que desde seu início manteve-se firme nesse propósito de fechar a Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul sem diálogo com a comunidade gaúcha. Sabe-se que o orçamento para funcionamento da FZB não passa de 0,04% do gasto anual do estado demonstrando-se, assim, uma incoerência do discurso de fechamento da entidade por questões econômicas. A SBP também externa sua aversão por esse decreto ter sido promulgado durante um período eleitoral já muito conturbado, onde tal ato passou de forma mais desapercebida e, dessa forma, não criando maiores repercussões na mídia. Ficam as perguntas para os governantes do Rio Grande do Sul: quem cuidará do acervo da FZB? Pesquisadores do Brasil e do mundo continuarão a ter acesso a essa coleção para que possam desenvolver pesquisas futuras e concluir as pesquisas em andamento? Quem será responsabilizado caso ocorra deterioração e/ou dano ao acervo? Como fica o tempo e dinheiro público gasto com treinamento dos profissionais que trabalhavam lá e agora serão alocados para outras funções? Sim, é triste vermos o Museu Nacional desaparecer por descaso vindo de décadas, mas rogamos, enfim, que o crepúsculo das entidades científicas que vemos no Brasil esse ano não seja vinculado a questões políticas, ideológicas e eleitoreiras pois, esse sim, é um fogo que mata sem se ver.

Fale conosco através do formulário de contato em nosso site clicando aqui. © Sociedade Brasileira de Paleontologia. Todos os direitos reservados.
Esmeril Design